sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Kumbh Mela

No dia 14 de janeiro de 2010 teve início o festival Khumb Mela (khumb = pote; mela = festival) em Haridwar, no norte da Índia.

O Khumb Mela é considerado um dos principais festivais do hinduísmo, que ocorre quatro vezes a cada doze anos na Índia, intercalando entre as cidades de Allahabad, Ujjain, Nasik e Haridwar.
A cada ciclo de 12 anos acontece o Maha Kumbha Mela (maha = grande, maior) que marca o fechamento de um ciclo de 12 festivais em 144 anos de evento. O Maha Kumbh Mela acontece em Allahabad, a mais sagrada das quatro cidades. Milhões de devotos hindus se reúnem pra se banhar no Sangam – a confluência dos rios Ganges, Yamuna e Saraswati – para purificar corpo, mente e alma. O Maha Kumbh Mela é considerado o maior festival religioso do mundo.

O último Maha Kumbh Mela aconteceu em 2001 em Allahabad e foi o primeiro Maha Kumbh do século 21 e também do milênio. Em torno de 60 milhões de pessoas se reuniram na cidade sagrada para se banharem nas águas sagradas dos rios. O número de pessoas que se reuniram durante o período do festival o caracterizou como sendo o maior evento religioso da história.

Em 2007 ocorreu, também em Allahabad, o Ardh Kumbh Mela (ardh = metade), que acontece de 6 em 6 anos, atraindo novamente milhões de peregrinos e devotos que fizeram o banho ritual de purificação no Sangam.


A origem do Kumbh Mela data da Índia Antiga, no período védico, quando os festivais ao redor do rio começaram a ser organizados. Na mitologia hindu, a origem do Kumbh Mela baseia-se nos mitos de criação e nas teorias de evolução hindus, no episódio Samudra Manthan, o oceano de leite: os deuses haviam perdido a sua força e para recupera-la eles pensarem em “bater” oceano de leite primordial para extrair o amrita, o néctar da imortalidade. Para isso foi necessário um acordo temporário com seus inimigos, os demônios ou asuras, para que trabalhassem juntos, com a promessa de compartilhar o néctar igualmente ao término do trabalho. No entanto, quando o kumbh (pote) contendo o amrita (néctar) apareceu, iniciou-se uma batalha pela posse do pote. Por 12 dias e 12 noites (equivalentes a 12 anos humanos) os deuses e demônios lutaram no céu pelo pote de amrita. Durante a batalha, gotas do amrita caíram em quatro lugares na Terra: Allahabad, Haridwar, Ujjain e Nasik, que são os locais onde o Kumbh Mela acontece a cada 3 anos.

Namastê!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

O Gayatri Mantra

"Om Bhuh Bhuvah Swaha
Tat Savitur Varenyam
Bhargo Devasya dhimahi
Dhiyo yo nah prachodayat"

"Meditemos sobre a Luz Divina do adorável Sol da Consciência Espiritual que estimula nosso poder de percepção espiritual".

"Oh Deus, (nós) meditamos em Sua Divina Luz. Derrama Suas bênçãos sobre nós para que nosso intelecto possa ser iluminado, para que possamos nos elevar mais e mais até alcançarmos a mais alta consciência. Torna-nos capaz de meditar, de ter sucesso nos afazeres da vida e na realização de Deus (Verdade)."
* O Gayatri possui muitos níveis de significados. Os expostos acima são apenas alguns deles.


O mantra Gayatri é o mantra original para a Deusa Gayatri (Adi Shakti) e o Deus Sol. Sua origem remonta ao mais antigo dos Vedas, o Rig Veda [III, 62:10]. Atemporal, ele é cantado diariamente na Índia por praticamente todos os Brahmanes e devotos.

Deusa Gayatri

O Mantra Gayatri não é exclusivamente um mantra. É um mantra e uma oração combinados, o que lhe dá um poder muito mais efetivo para o desenvolvimento de nossas potencialidades espirituais. Ele incorpora na forma de um mantra a mais alta aspiração espiritual que uma alma humana é capaz.

Os mantras, por si só, carregam em si o poder inerente ao som. Quando a oração vem do âmago de nosso ser e é guiada por motivos inegoístas e por profunda aspiração, tem um tremendo poder. Ela é um chamado da Alma individual (Jivátma) ao Espírito Supremo (Paramátma), que é a própria fonte de seu ser e do poder espiritual e deve, portanto, ser escutada e respondida.

O Gayatri Mantra pode ser dividido em três partes bem definidas, cada uma com seu propósito e significado específico.


1ª) A primeira parte do mantra Gayatri
"Om Bhuh Bhuvah Swaha"
"Om Bhuh Bhuvah Swaha"
om bhuh bhuvah swaha
Sua função ou propósito é estimular nos corpos ou veículos do sádhaka (praticante) poderes espirituais latentes que preparam o terreno para o funcionamento efetivo da segunda e terceira partes.

Estes poderes são ativados pelo poder do som ou Vak o qual harmoniza os veículos e os sintoniza com as forças dos planos superiores, tornando possível a manifestação de estados superiores de consciência.
Cada Jivátma (alma individual) é um microcosmo que contém dentro de si, em estado potencial, todos os poderes e faculdades que funcionam ativamente em Paramátma (Alma Universal, macrocosmo).
O Om, que aparece logo no início do mantra, pode acelerar o processo de união de Jivátma com Paramátma. O poder do Om é fundamentalmente abarcante dentre todos os mantras. Ele afeta o próprio coração do Jivátma e a mais importante relação existente na Natureza: a relação entre Jivátma e Paramátma.
O mantra Om é a expressão do Deus Supremo e portanto os poderes que podem ser despertados no sádhaka e a expansão de sua consciência são praticamente ilimitados. Por essa razão, a sua inclusão no mantra Gayatri (e em praticamente todos os mantras): ele é um meio independente e poderoso de desenvolvimento espiritual e aumenta enormemente a eficácia do mantra.
As palavras Bhuh, Bhuvah, Swaha referem-se aos três planos inferiores - físico, mental e astral (ou intelectual) - e suplementam o poder geral do Pranava (Om) com seus poderes especiais. E
Esses três planos são derivados de Pranava (Om).

2ª) A segunda parte do mantra Gayatri

"Tat Savitur Varenyam
Bhargo Devasya Dhimahi"
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Sua função ou propósito é, na verdade, uma invocação a Savita por mais Luz e que pretende avivar a aspiração espiritual do sádhaka. Savitur é o brilho do Sol e alude a Savitri, que simboliza ao mesmo tempo a criação e a origem de todas as formas de vida e o arquétipo da evolução espiritual humana. Por isso, o Gayatri Mantra é chamado também Savitri Mantra.

É um chamado da alma individual (Jivátma) para o Ser Universal (Paramátma), que é a fonte e meta de sua vida. Um pedido por iluminação da mais alta ordem, pelo conhecimento que fará realizar sua unidade com Ele, que é fonte de todo conhecimento, poder e glória.
O Sol, desta forma, é o centro da vida física e também da vida emocional, mental e espiritual. Dentro do Sol físico, e interpenetrando todo o sistema solar, estão ocultos mundos muitos mais sutis e de esplendor e poder. Estes mundos são expressões ou corpos de um Poderoso Ser: Surya Narayana ou o Logos Solar. Este Ser é o Senhor (Ishvára) do Sistema Solar e toda vida, em diferentes níveis, está contida em sua Consciência e é alimentada por Sua Vida, forças e energias.
De acordo com a filosofia hindu, cada sistema solar ou brahmanda é uma unidade separada e autônoma no Universo e é regida por um Senhor (Ishvára) em Seus três aspectos: Brahma, Vishnu e Shiva. Mas todos os sistemas solares, galáxias e universos fazem parte de um único Saguna Brahman, são células de Sua Consciência.

Assim, o Sol físico é apenas uma cobertura externa de uma gloriosa Realidade que permeia e energiza todo o Sistema Solar. Essa Realidade é em essência e fundamentalmente a mesma Realidade oculta no coração de todo ser humano. Descobrir e conhecer essa Realidade em seu próprio coração é o objetivo final de toda prática espiritual (sádhana) e o único meio de destruir as ilusões e limitações da vida inferior (samsára). Assim, o sádhaka pode invocar a Realidade por detrás do Sol e através do auxílio que ele obtém desta Fonte Suprema de iluminação espiritual, torna-se fácil a auto-descoberta.

O sádhaka (praticante) e o Sol Espiritual oculto por detrás do Sol físico são unos, de um modo misterioso e muito real.

O Sol Espiritual da Consciência é Savita - aquele a quem o Gayatri, através de sucessivos estágios, pretende revelar. Este Sol Espiritual é o verdadeiro centro da Consciência Espiritual - que se expressa e se limita nos vários planos ou níveis que constituem seus veículos. Portanto, podemos entrar em contato com esta Consciência em seus diferentes níveis, penetrando nas camadas mais profundas na nossa própria Consciência.


O processo de Auto-realização pode ser visto como a gradual elevação da nossa própria Consciência a fim de encontrar a Consciência do Logos Solar, da maneira como ela se reflete nos mundos cada vez mais sutis existentes dentro do Sistema Solar. Jivátma se eleva gradualmente aos planos superiores de existência tornando-se mais e mais una com a Consciência de Paramátma ou Ser Universal.
A palavra Varenyam significa "a melhor e digna de busca intensa e esforçada, com todo o coração e alma"; dhimahi significa "meditamos sobre" e está no plural. A prece contida no Gayatri deve, por sua própria natureza, ser em nome de todos os seres humanos. Quanto mais uma prece estiver livre de egoísmo, maior o poder de penetrar nos reinos internos da Consciência Divina e obter respostas destas regiões puras e sublimes.
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3ª) A terceira parte do mantra Gayatri"
Dhyio yo nah prachodayat"
"Dhyio yo nah prachodayat"
"Dhyio yo nah prachodayat""

A terceira parte do Mantra Gayatri implica numa total entrega ao Divino possibilitando o fluxo das forças divinas para dentro de seus veículos, purificando-os e dotando-os de maior grau de sensibilidade e capacidade para a iluminação. Após o esforço representado pela primeira e segunda partes do mantra, o sádhaka se abre para a Luz e Vida Divinas. A mudança de atitude para a auto-entrega remove ou atenua a obstrução causada pelo egoísmo possibilitando o fluxo das forças espirituais.

A palavra dhyioh significa "buddhi" ou inteligência superior e também está no plural; prachodayat siginifica "possa ele desenvolver (nossos buddhis)".

De acordo com a função e propósito de cada parte do mantra, fica claro que ele deve ser entoado de forma consciente e acompanhado pelas atitudes que lhe são correspondentes na Consciência. O sádhaka deve concentrar a mente na Luz da Consciência Divina oculta em seu coração. Ele tem que penetrar através da imagem do Savitá, na Realidade que está oculta por detrás dessas idéias.
"Meditamos sobre a luz adorável do divino Savita que desenvolve nossos buddhis""
"Meditamos sobre a Luz adorável do divino Savita que desenvolve nossos buddhis"

Fontes:
Gayatri - O Mantra Sagrado da Índia. I.K. Taimni. Edição em Português, 1991. Editora Teosófica.
Dicionário de Yoga. Pedro Kupfer. 3ª edição, 2001. Instituto Dharma.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Navaratri - o festival das nove noites

Nav significa 'nove' e ratri 'noite'. Assim, Navaratri significa nove noites. É mais um dos festivais hindus que simbolizam o triunfo do bem sobre o mal. O Navaratri acontece no começo de outubro e, como o próprio nome diz, tem a duração de nove dias. Navaratri é também conhecido como Durga Pujá.
No Navaratri Deus é adorado como a “Mãe”. O hinduismo é a única religião do mundo que enfatiza tanto o aspecto materno de Deus.

Há muitas lendas associadas ao conceito do Navaratri, assim como todos os festivais hindus. Todas elas são relacionados à Deusa Shakti (a Deusa Mãe hindu) e suas variadas formas – Durga, Lakshmi e Saraswati - e é um dos festivais mais celebrados do calendário hindu.
Os três primeiros dias são dedicados à deusa Durga – a deusa guerreira – vestida de vermelho e montada em um tigre. Suas várias encarnações – Kumari, Parvati e Kali – são adoradas durante esses dias. Elas representam os três estágios da mulher: a criança, a jovem e a mulher madura.
Durga

Os três dias seguintes são dedicados à deusa Lakshmi – a deusa da riqueza e prosperidade. Lakshmi se veste de dourado, tendo como veículo uma coruja.

Lakshmi

Os últimos três dias são dedicados à deusa Saraswati – a deusa do conhecimento – vestida de puro branco e tendo como veículo um cisne branco.


Saraswati

O décimo dia do festival é chamado Dussehra (ou Dasara), e simboliza o triunfo do bem sobre o mal (simbolizado pela vitória de Rama sobre Ravana, do épico Ramayana).

Para a celebração são preparados vários doces, e crianças e adultos se vestem de roupas novas e de cores claras.

O sentido espiritual do Navaratri:
- nos três primeiros dias, Durga, a guerreira, que simboliza força e poder supremos, destrói as nossas impurezas e vícios;
- nos três dias seguintes, após a purificação realizada pela deusa Durga, Lakshmi, a deusa da riqueza e prosperidade, nos traz as qualidades necessárias para recebermos conhecimento e adquirirmos sabedoria;
- nos últimos três dias, a Deusa Saraswati nos proporciona o conhecimento e a sabedoria necessários para a nossa evolução espiritual
.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O ciclo da vida

Após vários meses resolvi escrever novamente no meu blog. Durante esse período, minha mente esteve focada em outras situações e eventos, e acabei perdendo a inspiração e o tempo para escrever. Não que isso tenha sido ruim, apenas o foco foi desviado e a distribuição da energia nas minhas atividades do dia-a-dia foi um pouco alterada. Mas o importante é que estava atenta a este momento e que, como tudo na vida, consciente de que ele também iria passar. A vida é assim mesmo, feita de ciclos, por isso cá estou eu de volta. Agradeço aqueles que questionaram a minha ausência no meu blog e que estavam sempre aguardando por novos textos.


E é exatamente sobre os ciclos da vida que eu escrevo hoje. Pensando em quantos milhões de ciclos, diria até "zilhões" pelos quais passa a nova vida. Afinal estamos o tempo todo em eterna e contínua transformação, desde o momento em que nascemos; mesmo que algumas dessas transformações sejam inconscientes num primeiro momento ou até mesmo por toda vida.


Cada ciclo deve ser vivido de forma consciente. Um mesmo ciclo também é composto de distintas fases, e cada uma dessas fases também deve ser vivida conscientemente. Deve-se praticar a auto-observação constante, assim como observar o que acontece ao redor. Assim, adquire-se a capacidade de ser testemunha de si próprio, consciente de que o ciclo é transformador, e que ele regenera o corpo, a mente e a alma. De que ao término de cada ciclo uma nova pessoa é revelada, com mais conhecimento sobre si próprio, a vida, os outros e o mundo ao redor. Esse conhecimento, que é obtido através da observação, ponderação e análise de si mesmo e de tudo o que acontece, acaba contribuindo para a verdadeira sabedoria - que é obtida não apenas pelas experiências que se vive externamente, no relacionamento com as pessoas, objetos, eventos, situações, o mundo ao redor - mas principalmente pelas experiências vividas interiormente, no contato mais íntimo, profundo e verdadeiro com a própria essência. E ao fim de cada ciclo, renovado e dotado de mais conhecimento e sabedoria, deve-se tambér ser sábio o suficiente para aceitar o fato de que o conhecimento e/ou sabedorias adquiridos são apenas uma parcela mínima do que ainda se tem para aprender; aceitar o quanto ainda não se sabe e estar pronto para mais um novo ciclo, consciente e atento à cada transformação.

Traçando um paralelo com a prática de yoga, utilizo como exemplo uma das técnicas da prática do Hatha-Yoga: o ásana. O modo como se vivencia cada postura: a consciência da postura em si, do que ela traz ao corpo, à respiração, à mente, à percepção do nível do autoconhecimento, entre outros aspectos. Cedo ou tarde a execução daquele específico ásana chega ao fim, mas tudo o que se vivenciou nele está impregnado no corpo, na mente e na alma. Assim, preparado para executar o próximo ásana, deve-se estar aberto à novas experiências e aprendizados, consciente de que uma transformação já aconteceu em função do ásana anterior, mas que a transformação é contínua, incessante, eterna. Assim como o aprendizado.

Kutub Minar, Nova Delhi, Índia

A vida é feita de ciclos, portanto estar consciente de cada ciclo, é estar consciente da própria vida. É ser uma eterna testemunha de si mesmo, consciente de que a própria vida é também apenas um ciclo, repleta de aprendizados e que tem um começo, um meio e que um dia chega ao fim.
Portanto, estar aberto e pronto para uma nova vida, só depende de se aceitar o quanto não se sabe. Aceitar a infinitude do Universo e dos seus mistérios.


"Você é sempre livre para mudar de idéia e escolher um futuro diferente...
ou um passado diferente."
Richard Bach


domingo, 26 de outubro de 2008

Deepavali - o festival das luzes

27 de outubro de 2008
Deepavali ou Diwali é um dos mais celebrados festivais da Índia. A palavra Deepavali se origina de duas palavras sânscritas: deepa que significa “luz” e Avali que significa “fileira”. Assim, Deepavali é chamado de “o festival das luzes”.
Para se celebrar o Deepavali, os hindus acendem lamparinas, tomam banhos aromáticos, fazem desenhos multicoloridos no chão feitos com farinha de arroz, limpam e decoram as casas, vestem roupas novas, preparam doces em casa, estouram fogos de artifício, e veneram as vacas como sendo encarnações da deusa Lakshmi (deusa da abundância e prosperidade) e Lakshimi Puja (oferenda a Lakshmi).

Existem duas principais estórias relacionadas à mitologia que explicam a importância do Deepavali.

Na primeira estória, o Deepavali significa o retorno de Lord Rama do seu exílio na floresta a seu reino Ayodhya após sua conquista vitoriosa sobre o cruel rei Ravana. Por um longo período Ayodhya foi mergulhada na escuridão quando Rama estava em seu exílio na floresta. Em sua ausência, a radiante Ayodhya foi uma cidade de escuridão, mas as florestas estavam cheias de luz. O retorno de Rama foi saudado pelo povo de Ayodhya como o retorno do esplendor divino e por isso os hindus celebram o evento com lamparinas espalhadas por todo lugar. Esta estória tem importância maior no norte da Índia.

No sul da Índia, Deepavali representa a vitória de Lord Krishna sobre o poderoso asura (demônio) Narakasura. Narakasura se tornou uma ameaça para os deuses no céu e se apoderou dos esplêndidos brincos de Aditi (a Deusa Mãe) e aprisionou as dezesseis mil filhas dos deuses em seu harém. Em desespero os deuses liderados por Indra solicitaram a Lord Krishna para destruir o demônio pois ele estava espalhando destruição. Krishna concordou prontamente e travou uma luta feroz e saiu vitorioso. Isso aconteceu depois que ele aceitou as dezesseis mil donzelas como suas esposas como solicitado por elas mesmas.

O significado por traz dessas estórias mitológicas é que o vilão da estória representa o ego dominado pelos desejos. Em nossas vidas, é o nosso ego e nossos desejos que nos causam transtornos e sofrimentos. Na estória de Lord Krishna, as dezesseis mil donzelas representam nossos inumeráveis desejos. Quando eles são controlados pelo nosso ego eles causam destruição e nos privam de nossa verdadeira felicidade. Mas quando são controlados e sublimados são substituídos pela luz da sabedoria, nos tornando conscientes de que somos divinos e livres do que o mundo dos sentidos tem a nos oferecer.

A chama da lamparina tem duas qualidades. Uma é banir a escuridão, a outra é seu contínuo movimento ascendente. Por essa razão, os sábios veneram a lamparina da sabedoria como a chama que guia os homens para estados superiores. Juntamente com o ato de acender lamparinas externas, o homem deve esforçar-se para acender as lamparinas dentro de si mesmo.

Deepavali é um festival designado a celebrar a supressão do Ego pelo Eu Superior. O homem é mergulhado na escuridão da ignorância e perde seu poder de discriminação entre o permanente e o transitório. Quando a escuridão da ignorância causada por Ahamkara (ego) é dispersada pela luz da Divina sabedoria, o esplendor do Divino é experenciado.

O significado íntimo de Deepavali é guiar o homem da escuridão para a luz. O ser humano é perpetuamente mergulhado na escuridão. Deve então acender uma lamparina que está sempre brilhando dentro de si e levá-la consigo aonde quer que vá, iluminando sempre seu caminho.

"asato ma sadgamaya
tamaso ma jyotirgamaya
mrtyorma amrtam gamaya"
(Brhadaranyaka Upanishad — I.iii.28)

Tradução: Guie-me de “Asat” para “Sat”
Guie-me da escuridão para a luz
Guie-me da morte para a imortalidade”

Sat = existência, realidade, verdade
asat = não-existência, não realidade, não verdade

sábado, 4 de outubro de 2008

Autoconhecimento e Liberdade

Todos anseiam pela liberdade. Claro, seria ótimo simplesmente fazer tudo aquilo que queremos a qualquer momento. Mas isso é realmente liberdade? A verdadeira liberdade é algo mais profundo e que, na verdade, anda de mãos dadas com a responsabilidade e com a consciência de si mesmo, das outras pessoas e do mundo ao nosso redor.

Se por alguma razão existe uma certa pressão ou restrição em algum aspecto da vida, é natural nos sentirmos incomodados e logo clamar pela tal "liberdade". Mas são justamente essas situações que devem levantar a questão sobre o que é a verdadeira liberdade.

Liberdade é uma escolha, e como tal, envolve ganhos e perdas. Por isso, deve ser feita de forma consciente, responsável e verdadeira. E muitas vezes descobrir a verdade é um caminho longo e que exige uma boa dose de esforço e dedicação.

Na maioria das vezes é mais fácil saber o que não queremos. Uma situação que traz aborrecimento, incômodo, irritação faz aflorar dentro de nós o desejo de nos libertarmos dela o mais breve possível. Mas aí fica a questão: "sei muito bem o que eu não quero... mas o que eu realmente quero? O que é que vai me trazer a verdadeira liberdade?"

Quando sabemos o que realmente queremos fica mais fácil optarmos e obtermos a verdadeira liberdade. Mas para se saber o que realmente queremos, a busca pelo autoconhecimento é imprescindível. Não existe outro caminho.

Devemos aprender a escutar de forma profunda e verdadeira qual é a revelação -- ou revelações -- feita pela nossa alma, ou seja, pela nossa verdadeira essência.

Muitas vezes a percepção do queremos hoje é completamente diferente do que quisemos ontem, e muito provavelmente será diferente também do que se desejaremos amanhã. Essa consciência da própria mutabilidade a que todos estamos sujeitos mostra que um certo grau de autoconhecimento já foi alcançado, e isso faz com que as nossas escolhas sejam mais conscientes. A mutabilidade acontece porque não estamos habituados a escutar a nossa alma, mas sim, a nossa mente.

O que a mente deseja é passageiro, é temporário. Uma vez alcançado o objeto desse desejo, logo outro aparece. É um caminho sem fim. O desejo mutável é aquele que nasce da nossa mente, que se baseia em expectativas e anseios em relação a objetos externos.

O que a alma nos revela é eterno. Essa revelação estará sempre presente pois se baseia em algo que está dentro de nós, que é parte da nossa verdadeira essência. Nossa alma é que nos mostra o caminho da verdadeira liberdade. Por ser uma liberdade consciente e verdadeira ela é também abrangente e envolve a tudo e a todos ao seu redor.

A alma é mais sutil do que a mente. Para escutá-la de verdade é imprescindível aquietar a mente. Neste caso, o caminho a ser trilhado é o da meditação que deve ser praticada com despojamento de valores e atitudes.

É importante não confundir as revelações feitas pela nossa alma com os apelos da mente. Cabe a cada um de nós a capacidade de distingui-los. Essa capacidade se desenvolve naturalmente à medida que progredimos no caminho do autoconhecimento. Quando se é verdadeiramente livre, não existe situação externa, qualquer que seja, que afete esse estado de liberdade.

Liberdade verdadeira é um estado permanente pois se origina na nossa alma que é uma parte da grande Alma Universal, que é imutável e eterna.

O autoconhecimento e a liberdade são
obtidos através das revelações feitas pela nossa verdadeira essência.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Ásana - parte 3

Outro tipo de sentimento que pode ocorrer na tentativa de execução do ásana é a pressa em executá-lo. Na ansiedade de querer dominar a postura o não prestar atenção a detalhes como posicionamento correto de articulações, intensidade do relaxamento ou contração da musculatura, entre outros, pode ocasionar lesões ao corpo, às vezes sérias.


O imediatismo é uma característica marcante dos nossos tempos, e é bem possível trazê-lo para a sala de prática. A sugestão então é aproveitar o momento da sua prática para exercer o "não-imediatismo": observando-se em cada passo para execução da postura, percebendo todo o corpo, a respiração, o alinhamento, onde você concentra a energia e o esforço para a execução, as sensações e as emoções que tomam conta de você durante todo o processo de execução do ásana.

Limites existem para serem conhecidos e respeitados. O desejo de superá-los é algo saudável, mas deve-se ter em mente que muitas vezes esse desejo pode não corresponder à sua viabilidade. Observe-se e perceba se a superação do limite, num determinado momento ou situação, é possível. Se não for, simplesmente aceite isso.


Observe se você não está valorizando demais o limite que, a princípio não pode ser superado, em detrimento de alguma potencialidade sua, algo que você tem e que pode desenvolver ainda mais. Preste atenção a isso, observe-se. O prestar atenção a cada detalhe, o estar presente 100% no "aqui e agora" é o que proporciona um maior conhecimento do seu corpo e de si próprio - auto-conhecimento baseado em respeito e aceitação.


"Dê me serenidade para aceitar as coisas que não posso
mudar, coragem para mudar as coisas que posso e
sabedoria para reconhecer a diferença". Reinhold Niebuhr